A Bíblia adverte: religião faz mal à saúde
“Vocês estão se ajuntando para pior, ao invés de melhorar, e ainda acabarão devorando uns aos outros”. A quem é dirigida essa dura reprimenda? A uma reunião do sindicato de pescadores, aos arredios adolescentes de uma escola ou aos recrutas de um batalhão? Nenhuma das hipóteses: é direcionada a um pequeno grupo de cristãos do século I.
Parece que não mudou muita coisa de lá pra cá, e o registro destas palavras servem de advertência para nós, ou seja, algo está profundamente errado quando o resultado da reunião em nome de Deus é intriga, separação, desprezo a outros grupos, insensibilidade, rancor por quem não compartilha suas convicções, desejo de destruição eterna aos inimigos, alienação, perda do bom senso…. Quem assim vive pode até ser religioso, mas certamente ainda não entendeu o que é o Evangelho.
A própria bíblia descarta qualquer manifestação de religiosidade como legítima se estiver divorciada de uma vida ética: “Se alguém supõe ser religioso, deixando de refrear a língua, antes, enganando o próprio coração, a sua religião é vã” (Tg 1.26).
Quando Paulo esteve pregando no Areópago não lhe passou despercebido a forte religiosidade dos atenienses: “em tudo vos vejo acentuadamente religiosos” (At 17.22), disse o apóstolo. Podemos dizer o mesmo de nossa gente. Enquanto na Europa o secularismo e a indiferença são a tônica da vida, no Brasil notamos o forte interesse religioso de nosso povo. Aqui, basta alguém ser portador de supostas experiências místicas que logo arrebanhará um séqüito de seguidores. Bruxos, gurus, iluminados, são reverenciados. O autor brasileiro mais vendido, certamente não conseguiu essa marca por suas qualidades literárias, mas porque vende sua experiência de mago.
Somos um povo religioso, mas não necessariamente uma nação guiada pelo Evangelho. Há alguns anos entrando em um táxi notei no painel à minha frente um adesivo “Só Cristo Salva”. Logo imaginei estar ao lado de um fervoroso cristão. Mas quando me voltei para o motorista observei pendurado no espelho retrovisor um emaranhado de figas, guias, patuás e ferraduras. Sim, eu estava ao lado de um autêntico religioso tupiniquim, que à moda dos gregos, não queria ofender nenhum “deus”, por isso se dobrava a todos.
O fato de alguém ser religioso, na verdade, pode ser um grande impedimento para encontrar a Deus. Talvez, justamente por isso, Jesus via mais possibilidades no marginalizado, no adúltero e na prostituta que nos profissionais da fé.
A religião já fez muita coisa de ruim neste mundo: Cruzadas promoveram massacres e pilhagens [em nome de Deus], a Inquisição perseguiu e queimou muita gente [em nome de Deus], a catequização jesuítica ajudou a dizimar povos indígenas das Américas [em nome de Deus]. Muitas bombas ainda explodirão nesta Terra, seja em nome de Deus, seja em nome de Alá. Nos arraiais evangélicos estabelecem-se regras estapafúrdias, proibições ridículas e tribunais de condenação, tudo supostamente “em nome de Deus”.
Muitos fiéis reverberam para o mundo a loucura de seus líderes. Aliás, loucura e religião podem andar de mãos dadas em perfeita sintonia, pois a religião é uma ótima propagadora de diversas patologias: os obsesssivos-compulsivos esfalfam-se em cumprir seus rituais rígidos e de forma fixa por toda a vida, os histriônicos derramam-se na teatralidade de seus gestos, falas e gritos histéricos, e uma considerável parcela da liderança é megalomaníaca e sofre de baixa auto-estima, por isso precisa de grandes realizações e de seguidores que repitam o quanto eles são bons.
Não é incomum fiéis serem proibidos por psiquiatras de freqüentarem igreja ou buscar qualquer forma de religião, tal a gravidade das doenças instaladas.
A palavra religião vem de “re-ligar”, ou seja, tentar se unir ao Divino pelo seu próprio esforço, disciplina e sacrifício. Obviamente isso está fadado ao fracasso. Jesus não veio inaugurar “mais uma” religião. Ele veio anunciar a Ele mesmo e a chegada do Reino entre nós. Nenhuma forma de religiosidade consegue atender às necessidades existenciais do homem: só Ele! Jesus veio para curar as vidas de suas mazelas, dar uma esperança real, nos afastar das ilusões, apontar o Caminho, que é Ele, e salvar-nos de nós mesmos. A grande pergunta, então, não é se você é religioso, mas se você é um discípulo de Jesus.
O que fizemos do Evangelho, que é vida, que é água a jorrar, que é relacionamento e intimidade com Deus e toda a sua criação? Sim, o que fizemos do Evangelho? Transformamo-lo em uma religião sem Deus.
Um alerta final, aos sem-religião: não se sintam privilegiados por não pertencerem a nenhum grupo religioso. Esconder-se e viver uma vida isolada, crendo do “seu” jeito e vivendo à “sua” maneira, tão somente os deixa suscetíveis ao auto-engano e auto-ilusão, e vocês constituem para si mesmos o seu próprio deus. O que não deixa também de ser uma religião.
Daniel Rocha
Pastor e Psicólogo
Colaborador deste Portal
dadaro@uol.com.br
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