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O Ser Cristão… E a Política?

A Igreja de Cristo não pode imitar a República no que ela tem de pior. A Igreja é a consciência do Estado. E o cristão, nascido de novo, é sal da terra e luz do mundo. Não pode perder o brilho, nem o sabor.

Com tristeza e lamento, os fenômenos vergonhosos da República ecoam dentro da Igreja. O estilo de política da vida pública acaba tendo imitadores dentro da Igreja.
Entretanto, a Igreja não só é diferente do Estado, ela é a consciência do Estado. A fé Reformada proclama a separação entre Igreja e Estado, não admite intervenção do Estado na Igreja, nem da Igreja no Estado; mas admite e aceita como saudável a cooperação entre a Igreja e o Estado para o bem comum.

Paulo e Tito mostram os deveres do cristão em relação a todas as classes de pessoas sempre numa dimensão de fé, de amor e de serviço. O cristão é padrão, é referencial. Assim também deve ser a Igreja. Ela não pode, não deve e não vai se identificar com a política, com o Estado. A Igreja já está identificada com Cristo e com o Reino de Deus. Seus pastores são Ministros e Embaixadores que falam em nome e representam o Rei e o Reino de Deus. Não querem e nem aceitam ser rebaixados. E, se alguém for vocacionado por Deus para a política, deve deixar as suas funções de Embaixador do Rei e do Reino e de Ministro do Evangelho, para assim, e só então, servir na política. Temos posicionamento político e queremos influir nela para o bem do Brasil e para glória de Deus.

Entendemos também que o poder político é uma das expressões do poder nacional. O homem é um ser político. É um membro da “polis”, da cidade. O exercício pleno da cidadania, em um Estado de Direito, inclui obviamente, o direito de votar e ser votado. Isto nos regimes democráticos. O cidadão no pleno gozo dos seus direitos é um político. O problema não são os direitos do político, o problema são seus deveres: ao cuidar da “res” pública, da coisa pública, o cidadão-político-eleito é titular de um mandato para bem servir. Ser probo, honesto, incorruptível –como se isto fosse de todo possível – o político não está fazendo mais do que o seu dever.

O político não tem o poder. O poder pertence ao povo. Somente em nome deste e por sua expressa delegação, pode o cidadão-político exercer o seu mandato. Ou seja, a sua autoridade é delegada. O povo continua sendo o titular do poder, e deveria ter o direito de chamar de volta o seu representante e cassar-lhe o mandato delegado. É o instituto do “recall”, no voto distrital puro e simples, ou mesmo no voto distrital misto.

“Disse mais Faraó a José: Vês que te faço autoridade sobre toda a terra do Egito. Então tirou Faraó o seu anel de sinete da mão e o pôs na mão de José, e o fez vestir roupas de linho e lhe pôs um colar de ouro” (Gn. 41:41-42).
A sabedoria e o chamado de José para governar vieram de forma sobrenatural. O Deus Eterno deu-lhe sabedoria para interpretar a conjuntura, apresentar a solução e gerir a crise. O Faraó delegou-lhe autoridade e poder para governar, “sem a tua ordem ninguém levantará mão ou pé em toda a terra do Egito” (Gn. 41:44).

As grandes soluções são em geral simples. Durante os anos de fartura, o Estado foi tomador, comprou e armazenou todo o excesso de produção – não foi uma solução monetarista, de exploração do símbolo moeda. No primeiro momento o Estado ficou descapitalizado, e estocou bens de consumo. Poupar dinheiro na época das vacas gordas seria um erro. A moeda passou para as mãos do povo e os bens de consumo e sobrevivência para as mãos do governo. Na época das vacas magras, no tempo da escassez, todos vinham comprar do Governo – o dinheiro voltou. E o povo sobreviveu e ainda ajudou os povos vizinhos.

É legítimo e inteligente termos o político vocacionado por Deus e bem preparado, como cristão fiel. Mas cristão, querer virar político, nunca deu certo. A política é uma vocação de Deus, como as demais. E como tal deve ser exercida. “Não é em fazer o que você gosta, mas em fazer o que se deve que reside o segredo da felicidade” J.M Barrie.

E preciso deixar esta fobia de que um cristão nascido de novo, cheio do Espírito Santo, não resistirá à tentação do “poder”. Se o poder político ou qualquer poder lhe subir à cabeça, é porque ele ainda não experimentou o poder de Deus. Toda pessoa que fica menor do que o cargo que ocupa, não é digno dele, vai perdê-lo ou nunca o teve. O cristão é um ser da “polis”, da cidade, é um político. Mas o político, puro e simples não é necessariamente um cristão. Pode ser “religioso” e eclético por conveniência. Cuidado com esses políticos da “paz do Senhor”… Isto é mais falso do que nota de três reais. Só aparecem antes das eleições… Depois somem.

É também relevante e imprescindível a presença na sociedade o Magistrado Civil, pois é ministro de Deus. Paulo, o apóstolo é que faz esta apologia. “… visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme, porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, e vingador, para corrigir o que pratica o mal” (Rm. 13:4).

A fonte de autoridade dos governantes é Deus. Jesus respondeu ao governador Pilatos quando este lhe disse: “Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te crucificar?” (Jo. 19:10). Ao que Jesus prontamente respondeu: “Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada por isso, quem me entregou a ti maior pecado tem” (Jo. 19: 11). Você e eu sabemos bem quem foi que entregou Jesus à Pilatos e fizeram a maior pressão para que ele fosse crucificado. Chegaram mesmo a dizer: “Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos” ( Mt. 27: 25 ).

Que fique claro e entendamos com precisão que, governo civil é o meio ordenado por Deus para reger e manter a ordem nas comunidades. Na verdade “governo” é uma entidade abstrata, criada por ordenamento jurídico com atribuições, deveres, direitos e responsabilidades, e alguns dentre o povo são escolhidos e sustentados para governar. Deveriam fazê-lo sempre para o bem do povo em cujo nome e por delegação de quem recebem autoridade.

Tudo o que esta entidade criada por nós, chamada governo faz é com o dinheiro do próprio povo. Portanto, o mesmo deveria proteger e servir o povo dando segurança, educação, serviços públicos em geral para que cada um pudesse na sua iniciativa privada prosperar e progredir.

O governo que se deixa corromper não serve bem ao povo, cobra-lhe pesados tributos e impostos e oprime. O povo continua a eleger estes governantes e sendo por estes decepcionados. Até quando?

O povo tem, além do poder do voto, a força da opinião pública. Os governantes só melhoram quando todos os homens e mulheres de bem reagem e exigem melhores serviços e mais honestidade com a “res pública”, com a coisa pública.

O governo existe para o bem de toda a sociedade e não para favorecer alguns em detrimento de outros. Os cristãos devem exigir que os governos civis cumpram bem os seus deveres. Devem orar pelos governos civis. Obedecer-lhes as decisões justas e sábias. Estar atentos em relação a eles, lembrando-lhes de que são ministros de Deus para o bem e não para o mal. Deus os estabeleceu para governar, proteger, abençoar, manter a boa ordem e a segurança, criando condições para o progresso.

Por isso: “Daí a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra” (Rm. 13:7).

Francisco C. Cortes Alves
Pastor da Igreja Evangélica Batista Água Verde
Curitiba – PR

revcarloscortes@hotmail.com


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