Solidão, vocação pastoral
Em função do que viverá um homem chamado para cuidar de ovelhas, se não as tem? Os que vivem apregoando serem pastores, mas vivem em função dos meios de comunicação, como rádio, TV, são pregadores, mas não pastores.
O Salmo 23 define bem o pastor. Ele é o provedor da ovelha. O texto tem o significado profundo de “não me faltará pastor”. Se o Senhor é meu pastor, Deus não me faltará. Quando falta Deus numa vida, essa vida é uma vida infeliz. Se do Senhor não tenho falta, porque Ele me é companhia, mesmo que algo me falte, não sentirei. Ter provisão tão abundante que me deite sobre elas, é, na Palestina, um quadro milagroso, tal a pobreza do solo. O pastor da Palestina afastava-se de seu lar. Era um solitário, muitas vezes por longos dias. Desejava muitas vezes um semelhante para desabafar. Não conseguia. Ovelha não fala. Essa semelhança é muito grande. Se um pastor pronuncia uma palavra sequer, ela vai longe. Vai provocando um desastre. Usam-na abundantemente. Ele está desanimado. Ele não pode ser molestado. Ele isso, ele aquilo. Ao invés de consolo, a solidão aumenta. Domingo passado recebo um telefonema de um pastor. O outro me pergunta: “Como posso chegar ao pastor tal? Ele sumiu. Não atende nenhum telefone.” Supõem alguns, que se retirou para orar. Sofre pressão de um grupo. Foi em busca de solidão. O pastor movimenta-se vagarosamente. Fala em tom natural. Gesto brusco, voz alta, se dorme e fica estático, qualquer quebra da naturalidade, causa desassossego e insegurança no rebanho. As águas que o pastor oferece às ovelhas devem ser tranqüilas. Nada de ameaças como: se não fizer isto, vai acontecer aquilo. A ovelha não bebe em córrego ou em águas em movimento. Servir águas tranqüilas custa caro. É cavar na pedra. A rocha era cavada. Essa rocha, com sulco cavado, chamava-se cálice. O pastor é treinado no vale da sombra da morte. Não pode ter auto-piedade, a ovelha é um animal de grande insensatez. Em virtude das ovelhas serem o que são, o pastor vive seguidas situações de estresse. Ele vê a ovelha indo em direção ao pecado. A morte. Ao lobo destruidor. Os olhos atentos do lobo percebem o afastar da ovelha. Basta ao crente faltar um domingo e o coração do pastor levanta indagações inquietantes. O lobo se encoraja cada vez que vê uma ovelha distante. Quantas vezes o pastor não consegue chegar a tempo?
Quanta prática em curar feridas, adquire o pastor! Lares desfeitos, gravidez infantil, dívidas, alcoolismo, drogas, traições, infidelidade, boicote, insensibilidade, relações tensas causadas pela inveja e tantas outras feridas, constantes no seu rebanho! Vez por outra, ele se afasta e passa horas e horas, ao lado do dono do rebanho. São horas difíceis! São horas de prestação de contas do que aconteceu com as ovelhas. A sorte do pastor é que o Filho do dono do rebanho também foi pastor. Ele compreende. Ele sabe, pela experiência do Filho, como é difícil ser pastor. Quantas vezes Ele ouviu a queixa de Seu Filho pastor.
O pastor levanta cedo. Derrama óleo fervente nas moitas. Queima com óleo a pequena víbora mortal. Toma o carneirinho, passando a ponta curvada do cajado, por baixo da patinha do mesmo. Leva-o ao seio da mãe. Unge com óleo as rachaduras da cabeça provocadas pelo sol. É trabalho pela manhã, tarde e noite. Ele não descansa nunca. Ele sabe, só receberá descanso, quando adentrar pelos paramos eternos. Só na habitação do Senhor do rebanho ele obterá bondade e misericórdia. Por pior que seja a solidão do pastor, se ele abrir os olhos espirituais ver-se-á rodeado de anjos. A solidão valeu. Amém.
Pr. Manoel de Jesus Thé
Pastor da Igreja Batista Ebenézer – SP
pastorthe@yahoo.com.br
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