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O belo e a ética

ÉticaMinha saudosa esposa Hilda gostava de cantar com as crianças esta pequena canção: “O mundo de Deus, o mundo de Deus, que belo é o mundo de Deus! Foi feito pra ti, foi feito pra mim. Que belo é o mundo de Deus!”. Este cântico, que a inesquecível missionária Edna Harrington entoava com rara sensibilidade e comunicação fácil, ca-tivava a garotada.

Como lidamos com o mundo de Deus? O badalado castelo de 25 mi-lhões, mesmo tendo acolhido cassino e sendo acusado de manuten-ção desonesta, continua formoso? E a bela imagem de nossa Ama-zônia, em crescente déficit com o mundo de Deus por causa da in-contida ganância de inescrupulosos amantes do lucro? E outras for-mas de assolar a Natureza? Onde situar a ética? Distante da estética? Neste caso a feiura do caráter humano interfere na beleza da criação divina. É o belo utilizado sem qualquer vínculo com padrões de mo-ralidade, vítima de manipuladores que o despojam da real exuberân-cia.

Li recentemente numa revista a seguinte propaganda de uma loja: “É bonita de frente, de costas e por dentro, a união perfeita entre a bele-za e o conteúdo”. Num jornal, esta analogia dirigida aos que tentam encobrir desdouros com piedade enganosa: “O bife à milanesa é um artifício para esconder a carne de segunda”. Neste tempo de exacer-bada ênfase no corpo, é frequente a sôfrega busca de esteticistas – profissão em alta. Errado? Quem não se extasia perante o belo? Questiona-se é priorizá-lo ou reduzi-lo a um bem de consumo. As formas predominando sobre os conteúdos. Para uma jovem ser coro-ada a mais bela do universo, que é que conta? Probidade? Trajetória honrada? Nada importa a conduta passar longe dos critérios de sele-ção. Recorde-se a lição do sepulcro caiado (Mateus 23.27).

O namoro inclui interesse pela atração física. Por que não? A pre-servação do relacionamento, no entanto, demanda beleza interna, sem a qual a idade das rugas desfaz o romance e o amor vai embora. Que amor é esse? Fica bem aqui um exemplo das expressivas figu-ras de linguagem – figura de construção – conhecida como anacoluto, que permite a interrupção do plano sintático com que se inicia a fra-se: “Quem ama o feio, bonito lhe parece”. Quer dizer: “Para quem ama, o feio parece bonito”, ou “o feio parece bonito a quem ama”. Amor cego? Ou amor capaz de ver beleza onde ela parece inexisten-te?

A serviço do comércio oportunista e insaciável, bem assim do hedo-nismo vulgar e licencioso, o belo pode abdicar da virtude. Para a-dornar o mundo de Deus, porém, é preciso adicionar-lhe um santo propósito. Um culto sedutor pelas coreografias bem ensaiadas, efei-tos luminosos e demais aparatos que encham os olhos, se lhe faltar a Palavra que nutre e orienta (pão e lâmpada), o povo sairá faminto e errante. Se o belo suprime valores transcendentais, perde o maior encanto, esvazia-se e se torna descartável. Olhos cheios, mas cora-ção e mente vazios?

Afinal, o mundo de Deus envolve o homem privilegiadamente cria-do e responsável por preservar e manifestar o que é lindo, mas nunca como objeto de desejos escusos, inconfessáveis, dissociados do bem, da virtude. Um vínculo tanto mais requerido quanto mais predomine o materialismo frio e devastador. A beleza que Pedro prioriza nos adereços femininos vale para os dois gêneros (1Pedro 3.3-5). Confi-ra como esse texto atrela o belo à ética. O conhecido adágio “boniteza não põe mesa” subentende ausência do essencial.

Pr. Francisco Macebo Reis
Colaborador deste Portal


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