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Sessão da Câmara é marcada por disputa e bate-boca religioso

Carlos Cézar (esq.), Marinho, Yabiku e Donizeti

Carlos Cézar (esq.), Marinho, Yabiku e Donizeti

O encaminhamento do projeto de decreto que retira o título de Cidadão Sorocabano dado recentemente ao apóstolo e fundador da Igreja Renascer em Cristo, Estevam Hernandes, para análise das Comissões Permanentes da Câmara, transformou a sessão de ontem numa verdadeira disputa religiosa, com bate-boca, entre a bancada católica, evangélica e laica, que contou com acusações de perseguição, privilégios a determinada denominação e até mesmo blasfêmia. Foram mais de duas horas de ataques e acusações, onde a política foi deixada de lado e a disputa religiosa prevaleceu. Foram 11 votos pelo encaminhamento do projeto contra 7 pelo arquivamento. Votaram pelo arquivamento: Irineu Toledo (PRB), Carlos Cezar (PSC), Luis Santos (PMN), Gervino Gonçalves (PR), Geraldo Reis (PV), Rozendo Oliveira (PV), Emilio ‘Ruby’ (PMN).

A homenagem ao fundador da Renascer em Cristo partiu de iniciativa do vereador e pastor da Igreja Quadrangular Carlos Cezar da Silva (PSC), por, no seu entendimento, “tudo que fez por Sorocaba”. A entrega do título aconteceu na sede da igreja, no dia 26 de outubro. Dias depois, o vereador Benedito de Jesus Oleriano (PMN) protocolou proposta de revogação, com argumentação de que o “apóstolo” não fez nenhum trabalho relevante para a cidade, sendo que a população, ainda segundo ele, “o conhece mais por meio dos jornais e pelas páginas policiais”. Estevam Hernandes Filho e sua esposa a bispa Sônia Hernandes foram condenados nos Estados Unidos por conspiração e contrabando de dinheiro, além de responder no Brasil pelas acusações de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e estelionato.

O autor da homenagem saiu em defesa e tentou sensibilizar os colegas para que rejeitassem a deliberação da proposta, ou seja, para que ela fosse arquivada. “Quero pedir que votamos contra a deliberação. Faço um apelo, para que o projeto nem vá para discussão”, disse.

Já o autor da proposta que pretende “caçar” o título disse que sua decisão atende ao clamor da população e teve por base “orientação divina”: Na verdade gostaria de dizer que essa revogação não é contra o apóstolo… Estamos falando do homem, que foi notícia nos jornais . Ele (Carlos Cezar) foi precipitado ao conceder esse título. Estamos apenas atendendo o clamor da população. Tudo que eu faço aqui tem orientação divina”.

“Vossa excelência fala que não quer transformar isso em discussão religiosa, mas se posiciona como religioso. Então, está sendo antagônico”, disparou Carlos Cezar.

A partir daí a discussão e o bate-boca religioso se instalou. O vereador e pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, Irineu Toledo (PRB), partiu em defesa do colega da bancada evangélica. “Deixa eu falar uma coisa para o senhor (Carlos Cezar): A Bíblia diz: O mundo jás o maligno. Você acha que esse mundo vai fazer algo em nosso benefício? Não estranhe se houver uma reunião contrária aos nossos pensamentos. Você acha que este mundo vai se unir a nós em algum momento? Só farão se tiver bônus político”, disparou.

“Guerra santa”

A reação foi imediata por parte do líder do PT, Francisco França. “O pastor só fala que é coisa do demônio. Este vereador não é evangélico, não tenho nada contra. Esse vereador não tem medo das blasfêmias de vossa excelência. Essa história de que somos do mundo, o senhor pode fazer isso lá na sua igreja. Aqui não é ligar para isso. Vossa excelência conhece a Bíblia, se é que conhece”, rebateu.

Ministro da Palavra da Igreja Católica São José Operário, o vereador Anselmo Neto entrou na discussão e disse temer que a sessão se tornasse uma “guerra santa”. Nós sabemos que nosso Estado é laico, ou seja, não é um Estado religioso. Por isso, os debates religiosos não fazem parte da esfera Legislativa. Mas também sabemos que a boca fala do que esta cheio o coração”, disse, mas diante de comentários feitos por Irineu Toledo, enquanto discursava na tribuna, adotou tom mais incisivo e criticou a atitude do colega: “Não queira incutir no pensamento da população de que os evangélicos são perseguidos, por que não são. Com os os católicos também não são. Se os evangélicos se acham perseguidos, que dobrem os joelhos no chão e que chamem ao Senhor, para que Ele acabe com seus inimigos. Mas não façamos aqui uma guerra santa”.

O pastor da “Universal”, não satisfeito, voltou a discutir com Anselmo Neto. “O vereador fala que o Estado é laico, mas nós temos exemplo aqui nesta Casa. Eu não estou reclamando, porque quando isso acontece eu simplesmente saio, não falo nada, os Festeiros do Divino vem aqui no plenário e ficam uma hora, ao convite do presidente da Câmara (José Francisco Martinez – PSDB). Eles vem aqui, cantam, rezam, passam o pão… Aí quando nós queremos falar não podemos. Aqui não é lugar de crente ficar falando…”, criticou.

O vereador Caldini Crespo (DEM) foi outro que entrou na discussão. Disse ter recebido um telefonema anônimo no qual determinada pessoa teria levantando um dos motivos pela concessão do título de cidadania ao líder religioso da “Renascer em Cristo”. Eles estão respondendo processo na Justiça brasileira e esse título foi incorporado aos autos em defesa, como atestado de idoneidade ao casal. Podemos estar sendo usados num processo penal”, ponderou.

Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul


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