Devem os Batistas usar a unção com óleo?

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Quando interpretamos a Bíblia não podemos isolar uma palavra, uma frase ou um parágrafo e pensarmos que significa o que lemos em primeira instância. Não levar em consideração o contexto consiste num dos problemas mais graves na interpretação bíblica. Uma das regras da hermenêutica é considerar o contexto cultural em que a passagem e até mesmo o livro inteiro foram escritos. A importância desse procedimento decorre das diferenças culturais que existem entre nossa cultura ocidental e a cultura dos tempos bíblicos. Quanto mais tentamos transportar-nos para o contexto histórico dos autores bíblicos e nos desvincular de nossas próprias culturas, maior é a probabilidade de interpretarmos as Escrituras Sagradas com maior precisão.

O Texto que queremos analisar é o de Tiago 5:14: “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o (do grego aleipho ) com azeite em nome do Senhor”. À primeira vista, o parágrafo parece indicar que Tiago exorta-nos a usar a unção com azeite como um meio espiritual de cura para os doentes. Porém, ao analisarmos os verbos gregos traduzidos como ungir para a nossa língua, teremos uma visão abrangente do que esse texto significava para ao antigos cristãos. O verbo usado nesse texto é aleipho, que no grego significa esfregar ou untar. Isso está em perfeita consonância com o uso terapêutico do azeite pelos povos orientais (ver, por exemplo, Is 1.6 e Lc 10.34). É um verbo que aparece nove vezes no NT e sempre tem esse sentido de uso com abundância e não apenas um toque de unção, como fazem algumas igrejas neopentecostais ainda hoje (confira as outras ocorrências em Mt 6.17; Mc 6.13, 16.1; Lc 7.38,46; Jo 11.2, 12.3).

O outro verbo grego traduzido como ungir para a nossa língua é chrio, que aparece cinco vezes no NT e tem o significado original de unção ritual (confira as ocorrências em Lc 4.18; At 4.27, 10.38; 2Co 1.21; Hb 1.9). Se Tiago tivesse em mente a unção do azeite como um ritual envolvido na oração, ele teria usado o verbo chrio e não aleipho, como ele fez. O Dr. Roy B. Zuck, deão e professor de Exposição Bíblica no Seminário Teológico de Dallas, nos Estados Unidos, encerra em poucas palavras toda essa questão: “Por que Tiago disse que se ungissem os enfermos com óleo(Tg 5.14)? Existem dois verbos gregos com o sentido de esfregar, ou ungir. O primeiro é chrio, que significa ungir num ritual. Não foi esse o termo que Tiago uso. O verbo em Tiago 5.14 é aleipho, cujo significado é esfregar com óleo. Assim sendo, Tiago não estava referindo-se a um ritual. Pelo contrário, ele falava de uma atitude refrescante e estimulante para com as pessoas doentes ou deprimidas”.

Champlin, na sua Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, diz que ungir em Tiago 5.14 significa untar, besuntar, esfregar com óleo, numa unção literal e não com o Espírito Santo. Davidson, em o Novo Comentário da Bíblia, diz que “o óleo em si podia ter qualidades terapêuticas, e Deus podia abençoar os meios empregados com relação aos enfermos. Todavia Tiago diz que a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará. Nada indica que Tiago proibisse o uso de meios. O fato de Deus poder curar e algumas vezes cura mesmo sem o emprego de meios, não nos deve levar a pensar que recorrer à medicina é desonrá-Lo. O descrente usa a medicina sem oração; o crente pode usar a oração com a medicina, contudo ambos, afinal, dependerão de Deus”.

Embora a Bíblia de Genebra faça um comentário secundário sobre Tg 5.14 (“Também o óleo pode ter uma referência simbólica do poder curador de Deus”), a ênfase principal na explicação do versículo é a de que “o azeite de oliveira era usado com freqüência na medicina do mundo antigo, conf. Mc6.13 e Lc 10.34”. A Bíblia Shedd diz que “longe de sustentar a extrema unção, esta passagem trata de presbíteros (não sacerdotes) orando para a cura do enfermo; de óleo medicinal, não um preparativo mágico para a morte; de cura e restabelecimento físico e espiritual, não salvação além do túmulo”. Sabendo-se que o azeite era um dos principais remédios do povo antigo, cremos que se Tiago escrevesse sua carta hoje, ele diria assim: “Está alguém entre vós doente? Chame os pastores da igreja, e orem sobre ele, pedindo que o Senhor abençoe a sua quimioterapia, o seu analgésico, o seu antibiótico, a sua vacina, os seus remédios”.

Afinal, devem os batistas usar a unção com óleo? A resposta enfática é não! Usar um meio medicinal de 2000 anos atrás como símbolo curador ou animador da fé de alguém seria atropelar as regras da hermenêutica, fugir da exegese, cair num sincretismo religioso e acabar dando as mãos aos católicos romanos, que no comentário da Bíblia de Jerusalém dizem que “a igreja viu em Tg 5.14 uma forma inicial do sacramento da unção dos enfermos. Essa identificação tradicional foi definida pelo Concílio de Trento”.

Embora possamos notar algumas poucas referências sobre a unção com óleo entre os Batistas Gerais da Inglaterra nos primórdios da denominação, um olhar apurado na história dos Batistas Particulares, dos Batistas dos Estados Unidos e dos Batistas Brasileiros mostrará que a unção com óleo é uma prática estranha à nossa denominação. Não atentar para o contexto histórico inclinará alguns irmãos à prática neotestamentária do ósculo santo (1Co 16.20, etc.), do lava-pés (Jo 13.5, etc.), da prática da igreja de Corinto de proibir o corte de cabelo nas mulheres (1Co 11.5,6,15) e o falar na igreja (1Co14.34,35), bem como a proibição da mulher ensinar aos homens (1Tm 2.11-13).

Leonardo de Souza Guimarães
Bacharel em Teologia e Pós – graduado em História Eclesiástica
Diácono da Igreja Batista Central de Italva/RJ
dc.leonardoguimaraes@gmail.com

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