“Falta de atenção e diálogo na família cria filhos inseguros e distantes de Deus”, diz Psicóloga

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Na clínica psicológica, uma das coisas que mais vemos são crianças, adolescentes e jovens emocionalmente frustrados com o ambiente familiar. Eles trazem queixas envolvendo os pais, irmãos e até outros familiares ou cuidadores. Na maioria das vezes identificamos que os pais sentem muita dificuldade de estabelecer relacionamentos de confiança com seus filhos, o bastante para que eles se sintam acolhidos e compreendidos, o que pode gerar conseqüências preocupantes. Mas, por que isso acontece?

No meu livro, “Como Fazer do seu Filho uma Criança Feliz”, abordo várias questões sobre o assunto, mas aqui é possível abreviar alguns motivos que podem explicar essa dificuldade. Como cristãos, devemos compreender e tratar isso, antes que nossos lares se transformem em um campo de batalha e não no projeto idealizado por Deus. Sendo assim, minha intenção no texto de hoje é comentar alguns pontos, para que você tente colocar em prática pequenas mudanças que podem impactar o seu ambiente familiar.

Diferença de gerações

Alguns pais não conseguem enxergar o mundo dos filhos. Por serem adultos e já terem passado por várias experiências, muitas vezes o que os filhos trazem como situação do seu dia-a-dia termina sendo desprezado ou menosprezado pelos pais. “Isso é besteira, filho(a)…”; “Quando eu tinha a sua idade, era diferente…”; “Você não sabe o que é vida difícil…”; “Não tenho tempo para isso…”, etc. Essas afirmações marcam a diferença de geração, o que é muito real, mas quando não são dosadas da maneira correta, também terminam marcando o distanciamento da relação familiar.

Isso me fez lembrar uma música do cantor e compositor João Alexandre, chamada “Abismo de Gerações”, que descreve a maneira como pai e filho se comunicam. No início da letra lemos o seguinte:

“Eu tenho a leve impressão
De que as coisas um dia vão melhorar
Porque do jeito que estão
Não suporto não podem continuar
Quando ele é ‘sim’ eu sou ‘não’
Se ele é ‘certeza’ eu ‘sei lá’
E entre nós se abrindo o abismo vai
Das gerações
Já não consigo entender
Esse jeito esquisito de conversar
‘Eu tô legal pode crer’
Dá um tempo que a vida ‘inda vai rolar’”.
Ainda retornaremos à letra, mas por hora quero que você perceba como o autor descreveu o quanto o “abismo de gerações” possui características comuns. A forma de saber lidar com isso, na prática, é justamente não desprezando essas diferenças de gerações.

Todo pai e mãe precisa saber aceitar que a geração dos seus filhos não é a mesma da sua, e que assim como suas próprias gerações tiveram características marcantes, a dos filhos também possui. Mas, aceitação passa por compreensão, o que nem sempre significa concordância com tudo o que vemos se transformando ao longo do tempo. A verdade é que mesmo que você não concorde com certas coisas, a compreensão faz muita diferença na hora de dizer isso aos filhos, e eles sabem quando você realmente compreende ou não.

Diminua o abismo de gerações levando em consideração a maneira como seus filhos enxergam o mundo, entendendo, que, as dificuldades deles são proporcionais ao que eles entendem e já experimentaram da vida. Isso é fundamental, por exemplo, na hora fazer cobranças por boas notas no colégio ou de entender o choro daquela filha inconformada com o fim de uma “paixão eterna” que durou uma semana.

Falta de tempo

Alguns pais não dispõem de muito tempo para se dedicar aos filhos. Eles trabalham muito e quando chegam em casa estão exaustos. É natural que nesse momento de descanso, no final do dia, você queira fazer coisas como assistir TV ou qualquer outra atividade que não lhe cause preocupações. Então, para “evitar dor de cabeça”, alguns pais utilizam o poder de autoridade para impedir que os filhos “tragam problemas” com relatórios do que aconteceu no dia-a-dia. É aqui que o distanciamento na relação acontece.

Os filhos não são meros acessórios da vida cotidiana. Eles fazem parte da nossa vida. É por isso que ter filhos exige muita responsabilidade. Na prática, se você não possui tempo suficiente para dar atenção aos seus filhos, pessoalmente, demonstre para eles a sua presença afetiva. Isto significa que você deve aproveitar os pequenos momentos para demonstrar atenção, estar ouvindo, perguntando, convidando, oferecendo, ainda que por telefone, caso realmente não possa fazer isso de outra forma. Em outras palavras, a presença afetiva é a sensação que o filho tem ao saber que, mesmo fisicamente distante, os pais estão emocionalmente perto, acompanhando o que ele sente e faz no dia-a-dia.

Isolamento no mundo virtual

Esse último ponto é um mal que afeta muitas famílias. Não só os jovens estão se isolamento no mundo virtual, mas também os adultos.

Atualmente vemos cenas lamentáveis de pais e filhos reunidos na sala de casa, mas todos no celular, sem interação alguma. O que antes era culpa da novela, hoje são dos aplicativos. Crianças cada vez mais novas estão aprendendo a consultar no Google e na opinião dos “Youtubers”, ou dos chamados “influenciadores digitais”, questões que deveriam perguntar diretamente aos seus pais, antes de qualquer outra coisa.

O “tio Google” tem sido o conselheiro de muitas famílias, e não os pais. Mas, isso é culpa dos filhos? É culpa da tecnologia? Faça você mesmo uma análise do seu comportamento dentro de casa e tire sua própria conclusão. O avanço tecnológico pode ser um benefício se utilizado com bom senso. Uma dica valiosa nesse quesito é estipular regras de uso dentro de casa, como por exemplo, horários específicos para todos da família desligarem os aparelhos. Criar momentos de encontros onde os membros da família possam conversar, como na mesa de jantar, na hora do almoço e etc. Quantas famílias atualmente fazem isso? Talvez seja a ocasião de resgatar esses princípios.

Quando isso não existe dentro de casa, ou seja, quando pais e filhos não conversam com o tempo e qualidade que deveriam, a tendência é que os filhos se tornem jovens inseguros pela falta de referência e apoio dentro de casa. Consequentemente, essa insegurança gera mais problemas, como a busca por outros meios de autoafirmação. Até mesmo a fé em Deus pode ser abalada, já que filhos que não possuem os pais como modelos, dificilmente têm a fé deles como referência.

Assim, encerro retomando a música de João Alexandre como exemplo. Ela deixa claro que Deus, assim como Ele tem o interesse de nos dar atenção, compreender e nos ouvir através da oração, devemos agir da mesma forma com nosso filhos, fazendo do Senhor o nosso “ponto de encontro”, como diz o final da letra:

“Por isso Deus tem que ser pra nós
Ponto de encontro uma mesma voz
Que nos converte um ao outro e nos traz a paz”.


Por Marisa Lobo 

 

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