Lembrando de um Segredo

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Hoje resolvi me repetir e faço isso conscientemente, não porque não poderia falar outra coisa, mas porque, quando falei isso em 2007, muitos não eram pais e gostaria de falar para estes. Além do mais, é bom sempre relembrar de algumas coisas.

Gostaria de falar um pouco sobre pais, mas tenho um problema, que muitas vezes se repete, pois tenho que falar de mim mesmo. Praticamente tudo que sei sobre pais vem da minha vivência com meu pai e da minha experiência de pai, muito pouco vem de leituras de textos especializados. Preciso começar dizendo que é muito barato ser pai, como genitor. Por mais que me pese – e isso me pesa enormemente – tenho que dizer que paternidade é uma questão de relação e não, simplesmente, de genética. Não vou negar as heranças, psico-sociais/culturais ou as biológicas, pois seria muito ingênuo fazer isso, mas insisto em dizer que essas coisas não são determinantes da paternidade, mesmo que em alguns casos determinem situações na vida do filho ou filha, já que há doenças hereditárias.

É fácil ser genitor, trabalhoso é ser pai. Acho que as mães não entendem isso, mas peço perdão e licença, por não tentar explicar isso a elas, pois elas se tornam mães antes dos homens se tornarem pais, talvez por isso não entendam o que quero dizer.

Paternidade é passageira, alguns dizem que, pai é para a vida toda, eu acho que não. Nós somos pais por um período, depois deixamos de ser, ou ao menos deveríamos deixar de sê-lo para os filhos. Paternidade tem a ver com proteção, cuidado. Há, porém, uma fase na vida que nós deixamos de carecer desse cuidado e passamos a cuidar, quando isso acontece, a relação muda. No transcurso da vida, vamos deixando de ser pais, alguns se tornam amigos, outros peso, outros esquecidos, outros ilustres desconhecidos, que são homenageados uma vez por ano. Mas existe um segredo dos pais que peço licença para revelar aqui.

“Pai é o homem, cujo coração bate clandestino no peito alheio.”(Rubem Alves). É por isso que muitos não entendem o pai, seu coração bate em um peito cujo dono não sabe, nem deveria saber. Por isso o sofrimento do pai é diferente do da mãe. Clandestino vive escondido, pra nunca ser expulso de onde está; clandestino pode passar fome, sede, frio, só não pode reclamar, pois se não será extraditado para o seu próprio peito. Pai é um ser de clandestinidade, que pega carona, desautorizada, na vida do filho ou da filha. Isso pode explicar o medo que alguns pais têm de perder o carinho, o amor dos filhos e por isso faz tudo que eles querem, não os educa, não os instrui, deixa isso por responsabilidade da mãe.
Por isso ser pai é muito mais que ser genitor, ter um coração clandestino batendo no peito do filho ou filha.

“Filho meu, não te esqueças da minha instrução, e o teu coração guarde os meus mandamentos.” Prv. 3,1. Foi assim a relação de Deus com Jesus; foi isso que Jesus quis ensinar quando contou a parábola do Pai Amoroso; é assim a relação do Senhor conosco e assim deveria ser a dos pais e filhos.
Que Deus lhe abençoe nesse dia e nos faça pais, mesmo que ninguém entenda o que é isso.

Pr. Ágabo Borges de Sousa

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