Uma Introdução a Efésios

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efesiosEFÉSIOS 1.1

Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, aos santos e fiéis em Cristo Jesus que estão em Éfeso…

Você já parou para pensar na imagem que melhor define o apóstolo Paulo? Penso que é a de um soldado. Basta uma rápida olhada em suas cartas para se constatar que ele passou a maior parte do seu tempo em combate – ele combateu intrigas, imoralidade, ignorância, injustiça, preguiça, apatia, heresias e outras coisas mais.

Paulo foi um verdadeiro soldado da fé, tanto que de suas últimas palavras registradas no Novo Testamento se destacam as seguintes:

2Tm 2.3 – Suporte comigo os meus sofrimentos, como bom soldado de Cristo Jesus.

2Tm 4.7 – Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.

As cartas de Paulo, portanto, são como correspondências de um soldado de guerra, como cartas de um general comandando suas tropas espalhadas pelas diversas frentes do campo de batalha. Agora, pense por um instante no seguinte: o que Paulo teria escrito se ele não tivesse qualquer heresia para combater, nenhum falso apóstolo para contra-atacar, nenhum lobo infiltrado na igreja para abater e nenhum problema eclesiástico para resolver? A resposta é: Efésios.

A carta aos Efésios é singular por ser a única das treze epístolas paulinas que não foi motivada por problemas locais, por maus comportamentos, nem por desvios doutrinários. Para escrever essa epístola, Paulo se despiu de seu uniforme militar, guardou seu aparato de guerra e, afastado dos conflitos eclesiásticos, trajou-se como um brilhante pintor, com o propósito de colocar em tela uma bela imagem do povo da graça. Sim, podemos dizer que em Efésios, Paulo deixa de ser o destemido militar para se tornar o destacado pintor.

Charles R. Swindoll comenta o seguinte:

Em Efésios, Paulo levantou sua cabeça bem acima da poeira e da fumaça do campo de guerra para nos dar uma imagem do que Cristo fez por nós e porque. Sua carta nos fornece uma elevadíssima perspectiva – uma nova visão do nosso propósito, do chamado que recebemos como Corpo de Cristo e de como nós devemos viver no mundo. Ela mistura alguns dos mais sublimes e majestosos pensamentos teológicos com alguns dos mais práticos ensinos da vida cristã.

Em poucas palavras: o que nós temos em Efésios é um tratado da nossa posição em Cristo e de como deve ser a nossa postura no mundo.

Efésios conta a história do povo da graça – isto é: (1) quem é esse povo (Ef 1 a 3) e (2) como esse povo deve viver (Ef 4 a 6); ou (1) no que esse povo crê (Ef 1a 3) e (2) como esse povo deve se comportar (Ef 4 a 6)

Antes de prosseguirmos como os nossos estudos detalhados dos versos e capítulos dessa carta, o que nós faremos, Deus nos permitindo, ao longo dos domingos matinais desse ano, nós exploraremos alguns aspectos do pano de fundo dessa carta e veremos como Paulo construiu o seu argumento para a nossa edificação.

O MUNDO DE E A CARTA AOS EFÉSIOS

Aparentemente, Paulo não tinha qualquer problema específico dentro da igreja quando ele escreveu essa carta (não que a igreja não os tivesse, mas que não eram eles a preocupação de Paulo naquele momento). Do lado de fora, no entanto, a coisa era bem diferente. A igreja de Éfeso vivia numa sociedade que era letal para o cristianismo.

1. Perseguição romana

Enquanto Paulo escrevia, Nero governava com mão de ferro o Império Romano. Mais do que qualquer outro César, esse imperador perseguiu os cristão com sádica satisfação. Foi ele quem culpou os cristãos pelo incêndio infame que praticamente destruiu a cidade de Roma – incêndio este que, ao que tudo indica, Nero mesmo teria provocado – e usou tal acontecimento para justificar e incitar os assassinatos brutais de cristãos.

Até mesmo o antigo historiador Tácito, que também odiava os cristãos, admitiu que Nero teria ido longe demais em suas torturas.

Primeiro, Nero prendia todos os cristãos professos que ele conseguia. Depois, sob as denuncias que ele colhia através de torturas, outros tantos eram presos e condenados – nem tanto pela acusação de incêndio criminoso, mas por suas tendências antissociais. Suas mortes eram planejadas para ser um espetáculo cômico. Vestidos em pele de animais, eles eram despedaçados por feras, outras vezes eram crucificados, outras vezes eram feitos de tochas que clareavam os jardins de Nero na escuridão da noite [como se fossem luzes de Natal!]… Parecia que eles estavam sendo sacrificados muito mais pela brutalidade de um homem do que pelo interesse nacional.

Tácito também nos informa que muitos em Roma, apesar de não seguirem o extremo da maldade de Nero, criam que os cristãos eram criminosos e mereciam “punição implacável”. Realmente, não era fácil ser cristão dentro dos limites do Império Romano naqueles tempos.

Apesar de perseguição tão perversa, Paulo desafiou os efésios a raciocinarem muito além da mera sobrevivência. O apóstolo não queria que os cristãos vivessem consumidos pelos seus problemas (que eram sim muito sérios), pela ideia de terem que se esconder dos capangas de Nero. A vida não deveria se limitar a isso. Os cristãos deveriam fixar suas mentes na gloriosa graça de Deus, nos triunfos do céu, na posição deles em Cristo e viver preocupados com a postura deles em Cristo.

Que lição para nós hoje que, diante do menor desafio, nos deixamos ficar consumidos e abatidos pelos problemas e abandonamos os compromissos do reino de Deus. Paulo desafia a igreja com o seu próprio exemplo:

Ef 4.1-3 – 1 Como prisioneiro no Senhor, rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que receberam. 2 Sejam completamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor. 3 Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.

O apóstolo está dizendo que ele também tem problemas, ele também sofre com a perseguição, mas nada disso o impede de buscar o reino de Deus e a sua justiça em primeiro lugar.

2. O paganismo de Éfeso

Em adição à perseguição amplamente difundida pelo Império Romano, os cristãos efésios encaravam um desafio único. Éfeso era reconhecida pelo seu paganismo, e o templo da deusa Ártemis erguia-se como a jóia da coroa. William Barclay nos informa que:

O templo de Ártemis era uma das sete maravilhas do mundo. Um de seus destaques eram os seus pilares. Ele continha cento e setenta e sete pilares, cada um deles havia sido presente de um rei. Todos eram feitos de mármore, alguns eram cobertos de ouro e cravejados com jóias.

Esse templo projetava uma enorme sombra sobre a cidade. Ele não apenas controlava a mentalidade dos cidadãos, mas também impulsionava a economia do município. Fato este que Paulo descobriu da maneira mais dura possível.

At 19.23-30 – 23 Naquele tempo houve um grande tumulto por causa do Caminho.24 Um ourives chamado Demétrio, que fazia miniaturas de prata do templo de Ártemis e que dava muito lucro aos artífices, 25 reuniu-os com os trabalhadores dessa profissão e disse: “Senhores, vocês sabem que temos uma boa fonte de lucro nesta atividade 26 e estão vendo e ouvindo como este indivíduo, Paulo, está convencendo e desviando grande número de pessoas aqui em Éfeso e em quase toda a província da Ásia. Diz ele que deuses feitos por mãos humanas não são deuses. 27 Não somente há o perigo de nossa profissão perder sua reputação, mas também de o templo da grande deusa Ártemis cair em descrédito e de a própria deusa, adorada em toda a província da Ásia e em todo o mundo, ser destituída de sua majestade divina”. 28 Ao ouvirem isso, eles ficaram furiosos e começaram a gritar: “Grande é a Ártemis dos efésios!” 29 Em pouco tempo a cidade toda estava em tumulto. O povo foi às pressas para o teatro, arrastando os companheiros de viagem de Paulo, os macedônios Gaio e Aristarco. 30 Paulo queria apresentar- se à multidão, mas os discípulos não o permitiram.

Paulo, provavelmente, teria sido morto! Ele sabia por experiência própria que o paganismo religioso não favorecia nem facilitava a vida dos cristãos naquela cidade, mas nem por isso ele deixa de exortá-los:

Ef 4.1 – Como prisioneiro no Senhor, rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que receberam.

Depois da perseguição romana e do paganismo de Éfeso, vejamos:

3. A plantação da igreja em Éfeso

Em sua segunda viagem missionária, ao passar por Corinto, Paulo conheceu um casal que fabricava tendas: Priscila e Aquila. Ele imediatamente se tornou amigo e colega de trabalho dos dois. Em Corinto, os três trabalharam e falaram de Cristo por um tempo (At 18.1-7). Em seguida, o casal viaja com Paulo para Éfeso, onde o apóstolo os deixou e depois partiu para Cesaréia e Antioquia (At 18.18-22).

Em sua terceira viajem missionária, Paulo retorna a Éfeso e encontra alguns discípulos, provavelmente membros da igreja iniciada na casa de Priscila e Aquila (At 19.1). O apóstolo batiza os convertidos e permanece por um tempo na cidade, ensinando primeiramente na sinagoga e depois na escola pública de Tirano (At 19.1-9). Na ocasião, Paulo permaneceu por dois anos em Éfeso (At 19.10). Deus o abençoou com muitos milagres e um crescimento espantoso do evangelho na cidade (At 19.11-20).

Por que a igreja de Éfeso cresceu tanto apesar da perseguição e do paganismo? Charles R. Swindoll sugere que o segredo, além, é claro, da graça de Deus, está no longo tempo que Paulo investiu naquela igreja, ao todo três anos – mais do que em qualquer outra igreja.

Pregação e ensino públicos da Palavra de Deus, acompanhados da comunhão edificante em particular, ainda são as melhores armas contra os ataques do mundo, da carne e do diabo; e para o crescimento da igreja. Ouça o testemunho de Paulo, um tempo mais tarde…

At 20.17-21 – 17 De Mileto, Paulo mandou chamar os presbíteros da igreja de Éfeso. 18 Quando chegaram, ele lhes disse: “Vocês sabem como vivi todo o tempo em que estive com vocês, desde o primeiro dia em que cheguei à província da Ásia.19 Servi ao Senhor com toda a humildade e com lágrimas, sendo severamente provado pelas conspirações dos judeus. 20 Vocês sabem que não deixei de pregar-lhes nada que fosse proveitoso, mas ensinei-lhes tudo publicamente e de casa em casa. 21 Testifiquei, tanto a judeus como a gregos, que eles precisam converter-se a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus.

A organização da igreja em Éfeso se deu pelo esforço de um casal leigo e o frutífero pastor comprometido com a exposição da Palavra e a manutenção da comunhão, que sabia que os membros devem ser capacitados para o exercícios de seus ministérios:

Ef 4.11-16 – 11 E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, 12 com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, 13 até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo. 14 O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro. 15 Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo. 16 Dele todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função.

4. As partes da carta aos efésios

Vimos sobre a perseguição romana, o paganismo de Éfeso e a plantação da igreja. Vermos agora as partes dessa carta.

Efésios tem duas partes bem distintas.

1a CRENÇA – Capítulos 1 a 3 revelam como Cristo, através de sua morte, ressurreição e exaltação nos reconciliou com Deus, unindo judeus e gentios em um corpo. Essa primeira parte é doutrinária e revela a nossa posição em Cristo.

2a COMPORTAMENTO – Capítulos 4 a 6 nos instruem sobre como viver à luz da nossa posição em Cristo – da nossa nova identidade em Cristo. Essa segunda parte é prática e revela como deve ser a postura daqueles que estão em Cristo.

Efésios nos ensina que a vida do povo da graça, a vida de cada cristão, é construída sobre dois fundamentos: o conteúdo bíblico e o comportamento público que flui desse “saber”, dessa “doutrina”.

UMA INTRODUÇÃO A EFÉSIOS

À medida em que nós caminharmos por essa maravilhosa carta de Paulo, sugiro que mantenhamos três pensamentos sempre bem claros:

Um lembrete – Como igreja, estamos todos sob o mesmo Cabeça, Cristo o Senhor. Portanto, devemos nos submeter a ele e uns aos outros em amor.

Um alívio – Pertencemos a um corpo. Nós não estamos sozinhos e não precisamos agir sozinhos para resolver os nossos problemas. Nós podemos nos refugiar no Corpo de Cristo. Portanto, o pré-requisito indispensável é que tenhamos compromisso com Cristo e uns com os outros.

Uma segurança – Nós podemos resistir aos assaltos do inimigo, pois temos os recursos de Deus disponíveis para nós. Bata que sejamos equipados pela Palavra e pela oração.

E agora?

Você almeja conhecer mais da graça de Deus que nos torna e nos sustenta como povo da graça?

Quer saber o que significa estar em Cristo?

Deseja estudar sobre a postura do cristão na família, no mundo e na igreja?

Pretende saber mais sobre como ser submisso, comprometido e equipado?

Junte-se a nós nesse estudo de Efésios e deixe Deus transformar a sua vida. Torne-se parte do povo da graça.

Pr. Leandro B. Peixoto
Pastor da Igreja Batista Central de Campinas – São Paulo
Colunista deste Portal

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