As dores do homem de Deus no Ministério Pastoral

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“meus filhos, por quem de novo sofro dores de parto, até ser Cristo formado em vós”. (Gálatas 4.19).

As dores revelam uma anomalia. Num membro do corpo as dores são um sinal de que as coisas não vão bem. Mas elas são inevitáveis, pois fazem parte da nossa natureza herdada de Adão. Considerando as dores de parto, elas são diferentes em intensidade. A realidade da dor, suas causas e os seus efeitos fazem parte do conteúdo desta reflexão. Dor do latim “dolor” – ‘Sofrimento físico ou moral; aflição, mágoa; sensação penosa desagradável, causada por contusão, lesão ou estado anômalo do organismo ou parte dele’. Como relata o médico Paul Brand, uma dor é sentida toda vez que o sistema nervoso é informado que um estímulo nociceptivo (picada, queimadura, esmagamento, distensão de uma víscera, interrupção da irrigação sanguínea como no infarto do miocárdio, modificação da composição química do meio interno) toca um segmento corporal inervado normalmente.

A expressão ‘dores de parto’, vem do original ‘odino’: sinto dores de parto, estou para dar à luz, figuradamente de Paulo em angustia de espirito para trazer os crentes à conformidade com a vida de Cristo. Termo empregado em Apocalipse 12.2. Trata-se de uma expressão metafórica frequentemente usada nas páginas do Antigo Testamento (Salmos 7.14; Miquéias 4.10; Isaías 26.18; 66.8). Tratando desse assunto, Champlin, diz: “Tal como um embrião disforme pouco a pouco vai assumindo a forma de um homem, assim também com o crente imaturo, pouco a pouco, vai assumindo a semelhança de Cristo”. Este processo é doloroso, mas muito necessário.

Paulo não se satisfaz em que Cristo habite nos Gálatas, mas ele anseia ver Cristo formado neles, vê-los transformados à imagem de Cristo “até que Cristo lhes ocupe totalmente o ser”. O uso médico deste verbo (sentir) é para “a formação de um embrião”. A figura é um tanto confusa, como acertadamente afirmou o Dr. Alan Cole: Paulo ‘não está nos dando uma lição de embriologia, antes, está expressando o seu profundo e sacrificial amor pelos gálatas, seu anseio por eles (v.20), sua difícil situação. Observe as referencias a Cristo nos versículos 14 e 19. No versículo 14: …antes me recebestes … como o próprio Cristo Jesus. No versículo 19: … de novo sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós. À medida da experiência, a medida da dor. Quanto mais calejados no ministério, mais sensíveis. Não podemos mascarar a dor. Não temos o direito de tomar analgésicos, mas trata-las corretamente ou diagnosticar as causas.

Devemos conviver com as dores, pois, enquanto estamos aqui, elas sempre voltarão. Sentimos as dores quando pregamos o genuíno evangelho. O nosso ego não gosta. A nossa natureza humana gosta de acomodação, da zona de conforto. Aprecia fugir do confronto. Quer passar longe dos problemas da Igreja. Então há uma luta intensa – entre o meu querer e o querer de Deus. Como pastores, experimentamos as dores dos relacionamentos na família, na igreja e na sociedade de um modo geral. Algumas coisas nos causam dores terríveis. Wesley Duwell, tratando do tema, no capítulo “Seu Ministério de Lágrimas”, pergunta: Onde estão as suas lágrimas? Jesus chorou. Jó, Davi, Isaias, Josias, Esdras, Neemias, Jeremias, Daniel, Paulo e nosso Senhor CHORARAM. Jesus afirmou: “Bem-aventurados os que choram porque serão consolados” (Mateus 5.4). Neemias chorou ao saber da situação de sua cidade e sua nação (Neemias 1.4). O chorar do homem de Deus é fruto de suas dores intensas no exercício do ministério que Deus, em Cristo, lhe confiou.

As dores revelam a nossa fragilidade, que somos dependentes e incapazes. As dores mostram que somos humanos, sujeitos às mesmas paixões que Elias, o profeta de Deus. John Piper, um dia antes de retirar a sua próstata por causa de um câncer, afirmou: Não desperdice o seu câncer. Agradeça-o a Deus. Sofrendo com as dores do ministério precisamos nos lembrar das palavras de Jesus a Paulo num momento de dor: “A minha graça te é suficiente, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Co 12.9,10).

Ravi Zacharias, no seu precioso livro “O Grande Tecelão”, faz algumas colocações muito pertinentes: “Deus, o Grande Tecelão, procura pessoas com o coração terno para nelas colocar a sua marca. Suas magoas e decepções fazem parte desse plano para modelar o seu coração e o modo como você se sente a respeito da realidade. As dores que você experimenta irão sempre moldá-lo. Não há outro jeito”. “Em sua sabedoria, Deus permitiu a provação não apenas para moldar Jó, mas também para nos dar o exemplo de como uma pessoa íntegra se conduz através da dor e da provação. Ele já possuía um caráter íntegro, mas por meio dos seus sofrimentos vemos como uma pessoa íntegra se comporta em meio à tragédia. A obra de Deus é apresentada dessa maneira”. Um autor desconhecido reelaborou cada versículo do famoso e muito amado Salmo 23:

O Senhor é o meu Pastor… Isto é relacionamento!
Nada me faltará… Isto é suprimento!
Caminhar me faz por verdes pastos… Isto é descanso!
Guia-me mansamente a águas tranquilas… Isto é refrigério!
Refrigera minha alma… Isto é cura!
Guia-me pelas veredas da justiça… Isto é direção!
Por amor de seu nome… Isto é propósito!
Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte… Isto é provação!
Eu não temeria mal algum… Isto é proteção!
Porque tu estás comigo… Isto é fidelidade!
A tua vara e o teu cajado me consolam… Isto é esperança!
Unge a minha cabeça com óleo… Isto é consagração!
E o meu cálice transborda… Isto é abundância!
Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida… Isto é benção!
E eu habitarei na casa do Senhor… Isto é segurança!
Por longos dias… Isto é eternidade!
“O que é mais valioso não é o que nós temos em nossas vidas, mas QUEM nós temos em nossas vidas.

Seja o Senhor sempre engrandecido em nossas dores no exercício de nossos ministérios.

Pr. Oswaldo Luiz Gomes Jacob

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