Verdade e Testemunho verdadeiro

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(A verdade, as narrativas bíblicas e a educação teológico-ministerial ou a relação entre os dois mais importantes princípios dos batistas: o senhorio de Cristo e a autoridade bíblica)

“O amor não se alegra com a injustica, mas sim com a verdade” (I Cor. 13:6): “… seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.” (Efésios 4:15).

A verdade é única, mas narrativas dela podem ser múltiplas e cada uma dessas sempre será contada na forma percebida ou desejada pelo narrador:

1. a partir do lugar, da posição, onde  estava posicionado como testemunha da verdade (“cada ponto de vista é a vista de um ponto”);

2. com base em sua capacidade de percepção (qualidade de seus órgãos do sentido);

3. com base em sua capacidade de memorização do que percebeu (armazenamento de dados);

4. com base em sua capacidade de abstração (processamento dos dados percebidos, avaliação, análise, reflexão, enfim, e transformação em conhecimento);

5. com base na qualidade da reação de seus sentimentos (favoráveis ou desfavoráveis aos elementos que caracterizam a verdade percebida);

6. com base em suas finalidades e conveniências político-ideológicas (por prever consequências de sua narrativa da verdade testemunhada, para sua vida e de seus ouvintes/leitores).

A verdade pode ser um evento, um acontecimento, um fenômeno qualquer e  jamais se repete de maneira absolutamente igual. Suas características essenciais ou mesmo aparentes podem se manter, mas sempre haverá algo, em cada repetição, que a tornará diferente.

A “repetição de uma verdade”, (evento ou fenômeno) pode até parecer igual a olhos nus, mas basta que se utilize “olhos clínicos” ou “olhos tecnológicos” e se perceberá, no mínimo, que há nuances que a torna diferente.

I. Jesus como verdade

Jesus foi um evento. Um evento tão duradouro e extraordinário que João, um dos narradores que mais conviveram com a “verdade Jesus”, declarou: “Jesus realizou na presença dos seus discípulos muitos outros sinais milagrosos, que não estão registrados neste livro. Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome.” (João 20:30-31).

Ele – João – termina sua narrativa do evento, da “verdade Jesus”, dizendo: “Este é o discípulo que DÁ TESTEMUNHO dessas coisas e que as registrou. Sabemos que o SEU TESTEMUNHO é verdadeiro. Jesus fez também muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, penso que nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para os livros que seriam escritos.” (João 21:24-25)

Lucas nunca esteve com a “verdade”, com o “evento Jesus”, portanto, não a testemunhou, mas foi um exímio narrador do “fenômeno”. E como fez? Ele mesmo responde: “Muitos já se dedicaram a elaborar um RELATO DOS FATOS que se cumpriram entre nós, conforme nos foram TRANSMITIDOS por aqueles que desde o início foram TESTEMUNHAS OCULARES e servos da palavra. Eu mesmo INVESTIGUEI tudo cuidadosamente, desde o começo, e decidi escrever-te um RELATO ORDENADO, ó excelentíssimo Teófilo, para que tenhas a certeza das coisas que te foram ensinadas.” (Lucas 1:1-4)

As histórias que envolvem “a verdade Jesus”, foram narradas, então, por discípulos de primeira ou segunda mão. Narradores privilegiados, marcados de tal maneira, emocional e existencialmente, pelo que viram, ouviram dizer, leram, investigaram, que suas narrativas continuam produzindo impacto semelhante ao experimentado por aqueles que testemunharam a “verdade Jesus”.

Teoricamente, por mais honestos, cuidadosos e fiéis que sejam os narradores, uma narrativa jamais consegue descrever 100% da verdade que a caracteriza (Jo. 21:24-25). Sempre haverá um recorte que atenda uma finalidade, do tipo: “…para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome” (João) ou “…para que tenhas a certeza das coisas que te foram ensinadas”. (Lucas).

As narrativas da verdade são a única maneira de pessoas ausentes no instante do acontecimento terem acesso à ocorrência. Nesse caso, a narrativa e a verdade se con-fundem, restando a quem não testemunhou, não presenciou, crer ou não na narrativa.

Uma narrativa em si, tem poder para libertar ou oprimir,  produzir prazer ou dor, alegria ou medo, amor ou raiva, tristeza ou graça, esperança ou desespero e desesperança. O interesse pela verdade narrada depende, então, da condição emocional, das expectativas, de quem por ela está sendo afetado e das consequências que ela percebe e abstrai disso.

II. A narrativa bíblica como verdade

Se duas pessoas estiverem envolvidades em um crime, uma como vítima, outra como ré, as narrativas do mesmo evento, da mesma verdade, certamente serão diferentes. Daí a importância de especialistas em investigação, em advocacia e em  julgamento e da necessidade de provas e das narrativas de testemunhas.

No caso da Bíblia, esse é um dos papéis do teólogo. Investigar. Isso porque trabalha com uma verdade não testemunhada por ele, não presenciada no ato da ocorrência, mas conhecida através de narrativas, de testemunhos.

Um de seus trabalhos, por exemplo, é lidar com o conflito de autoridade entre Jesus – a verdade – e a Bíblia – a narrativa da verdade -, elemento que exige investigação e alertas constantes tanto sobre a verdade – Jesus – , quanto sobre as narrativas – textos bíblicos -.

Sendo a Bíblia a única fonte de narrativas a respeito da “verdade Jesus”, se ela for desacreditada, cairia por terra tudo o que se prega a respeito de Jesus. Por outro lado, a priorização dela como narrativa, em detrimento dele, como a verdade, pode induzir os leitores a se tornarem apenas, por exemplo, religiosos legalistas ou moralistas, transformando Jesus em apenas mais um de seus personagens, anulando assim os efeitos soterológicos, amorosos e graciosos de seu nascimento, vida, ensinos, morte e ressurreição.

Como nenhum de nós tem acesso, senão espiritual, à “verdade Jesus”, mas somente as narrativas a respeito dela, isso  faz com que a autoridade da narrativa seja tão ou mais enfatizada por muitos, do que a autoridade de Jesus – o fato, evento, fenômeno em si, a verdade.

No evangelho, Jesus é a verdade e o Novo Testamento, a narrativa da verdade, a interpretação da verdade, a aplicação da verdade. Não custa lembrar, então, que por mais fiéis e verdadeiros que os narradores, intérpretes e aplicadores tenham sido, jamais seriam capazes de reproduzir, de traduzir em grafia o evento real.

(Daí o pressuposto teológico “inspiração”, acrescido do polêmico adjetivo “verbal”, que transforma os escritores bíblicos em “psicografistas”, visando transferir a autoria absoluta dos textos para Deus, retirando a responsabilidade humana e, com ela, a incompletude ou a possibilidade de erros no conteúdo ou na forma da verdade que narra).

De qualquer forma, daqueles que leem as narrativas, sempre será exigido um elemento chamado fé, pois devem crer não no que viram, mas no que outros viram, vivenciaram, perceberam e narraram. É a narrativa que toca de maneira significativa em suas almas, reorientando o sentido de suas existências e legitimando a sua verdade.

Não por acaso desde os primeiros textos da fé judaico-cristã, a ênfase na importância das narrativas é grande.

Exemplo no Antigo (ou primeiro) Testamento: “Gravem estas minhas palavras no coração e na mente; amarrem-nas como sinal nas mãos e prendam-nas na testa. Ensinem-nas a seus filhos, conversando a respeito delas quando estiverem sentados em casa e quando estiverem andando pelo caminho, quando se deitarem e quando se levantarem. Escrevam-nas nos batentes das portas de suas casas e nos seus portões, para que, na terra que o Senhor jurou que daria aos seus antepassados, os seus dias e os dias dos seus filhos sejam muitos, sejam tantos como os dias durante os quais o céu está acima da terra.” (Deuteronômio 11:18-21).

Exemplo no Novo (ou Segundo) Testamento: “Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu e das quais tem convicção, pois você sabe de quem o aprendeu. Porque desde criança você conhece as Sagradas Letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus. Toda a escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra.” (2 Timóteo 3:14-17)

A igreja, em tese, é uma comunidade formada por pessoas que já creram nas narrativas a respeito do evento, do fenômeno, da “verdade Jesus”. Ocorre que em sua caminhada ela está exposta  a versōes – pregações, palestras – das narrativas que podem alterar, omitir, até mesmo incluir elementos, “pegando carona” na “verdade Jesus”. São elementos de interesse de indivíduos ou grupos no exercício do poder, visando a manutenção ou modificação do “status quo” social vigente.

Leia este caso clássico que pode ilustrar a diferença entre a verdade testemunhada por mulheres e a narrativa elaborada por líderes religiosos mal-intencionados.

1. A verdade

“Depois do sábado, tendo começado o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro. E eis que sobreveio um grande terremoto, pois um anjo do Senhor desceu dos céus e, chegando ao sepulcro, rolou a pedra da entrada e assentou-se sobre ela. Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve.

O anjo disse às mulheres: “Não tenham medo! Sei que vocês estão procurando Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui; ressuscitou, como tinha dito. Venham ver o lugar onde ele jazia. Vão depressa e digam aos discípulos dele: Ele ressuscitou dentre os mortos e está indo adiante de vocês para a Galileia. Lá vocês o verão. Notem que eu já os avisei”. As mulheres saíram depressa do sepulcro, amedrontadas e cheias de alegria, e foram correndo anunciá-lo aos discípulos de Jesus. De repente, Jesus as encontrou e disse: “Salve!” Elas se aproximaram dele, abraçaram-lhe os pés e o adoraram. Então Jesus lhes disse: “Não tenham medo. Vão dizer a meus irmãos que se dirijam para a Galileia; lá eles me verão”.  (Mateus 28:1-3, 5-10)

2. A narrativa falsa para atender interesses corporativos

“Enquanto as mulheres estavam a caminho, alguns dos guardas dirigiram-se à cidade e contaram aos chefes dos sacerdotes tudo o que havia acontecido. Quando os chefes dos sacerdotes se reuniram com os líderes religiosos, elaboraram um plano. Deram aos soldados grande soma de dinheiro, DIZENDO-lhes: “Vocês devem declarar o seguinte: Os discípulos dele vieram durante a noite e furtaram o corpo, enquanto estávamos dormindo. Se isso chegar aos ouvidos do governador, nós lhe daremos explicações e livraremos vocês de qualquer problema”. Assim, os soldados receberam o dinheiro e fizeram como tinham sido instruídos. E esta VERSÃO se divulgou entre os judeus até o dia de hoje.” (Mateus 28:11-15)

É compreensível, portanto, a disputa entre correntes de pensamento teológico visando fazer prevalecer sua narrativa da “verdade Jesus”. Uns focam no Jesus de Nazaré, outros no Cristo paulino, outros nos dois. Uns estão, de fato, interessados na “verdade”, outros, em garantir seus interesses pessoais, sociais, grupais, institucionais, usando as narrativas como elemento de imposição da verdade que lhes interessa, lhes beneficia, inclusive política e socialmente.

Por isso, considerando que uma narrativa pode provocar impactos relevantes na vida de um ouvinte/leitor, ele deve ser estimulado exercitar o direito de pesquisar todas as variáveis envolvidas numa narrativa a fim de depositar ou não sua confiança nela.

Também nesse sentido podemos entender as palavras de João quando diz: “Amados, não creiam em qualquer espírito, mas EXAMINEM os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.” (1 João 4:1).

Além disso, sabemos que as narrativas bíblicas não servem somente para narrar a “verdade Jesus”. Há outros interesses aos quais ela também pode servir. É comum que a autoridade dela, por narrar a “verdade Jesus”, também seja usada para emplacar outros interesses.

Exemplo disso foi o uso de narrativas bíblicas para sustentar ou destruir interesses político-econômicos nas revoluções inglesas do século XVII (período do surgimento dos batistas), como foi demonstrado por Christopher Hill em “A Bíblia Inglesa e as revoluções do século XVII”.

Isso fortalece a importância de investimento,  nas escolas teológico-ministeriais, em estudos profundos sobre a Bíblia e não apenas relacionados à formação ministerial visando  preparar mão de obra técnica para gerenciar um negócio religioso ou reproduzir uma ideologia teológica ou para aumentar o número de frequentadores de igreja ou para aumentar a capacidade financeiro-patrimonial eclesiástica e o poder político-denominacional.

Nesse caso, é essencial que se faça a pergunta básica de quem trabalha com educação: para que a instituição educacional existe? Existe para elucidar a “verdade” e seus efeitos a partir das narrativas existentes e da pesquisa de todos os elementos relacionados a ela ou existe para  divulgar narrativas convenientes aos interesses de quem delas tira proveito estritamente particular ou corporativo? Qual é a finalidade da educação teológico-ministerial oferecida?

A meu ver, o aprofundamento do estudo das narrativas visando lançar luzes sobre as implicações da “verdade” testemunhada pelos narradores bíblicos, bem como das interpretações dadas pelas DIVERSAS correntes de pensamento teológico é essencial:

1. numa sociedade que se caracteriza pela velocidade na veiculação de informação e na falta de priorização da analise, elaboração e construção de conhecimento;

2. numa época em que a polarização de interesses se aprofunda e “fake news”, pós-verdades, são usadas para obscurecer a verdade e ludibriar as pessoas;

3. numa sociedade na qual a fé tem sido usada por muitos como um produto financeiramente rentável, num mercado consumidor em expansão ou elemento de sustentação de ideologias políticas e suas estruturas operacionais.

Desejo, então, que essas linhas tenham despertado seu desejo para refletir sobre os assuntos “verdade”  e “narrativas da verdade” e ajudado a entender o porquê, a importância, de continuar estudando esses dois elementos no que se refere à fé cristã, a formação teológica e ao exercício ministerial.

Pr. Edvar Gimenes 

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