O lugar da minha fraqueza na vocação pastoral

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Eu tinha 20 anos de idade, morava em Niterói-RJ, estava começando no ministério cristão como obreiro de tempo parcial na Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABU) e seguia os meus estudos de História na UFRJ. Fui convidado por uma estudante para pregar num culto de sua igreja. Aceitei o convite, preparei o sermão e, no dia e hora marcados, lá estava eu, pronto para assumir o púlpito. Comecei a pregar e percebi que o meu sermão estava muito ruim, as coisas não estavam se encaixando, não via a hora de terminar. Quando finalmente terminei, foi um alívio. Regressei com o firme propósito de nunca mais voltar a pregar. Concluí que meu dom não era o ensino público da Bíblia. Regressei para casa pesaroso, abatido e frustrado. Havia sepultado minha breve carreira de pregador. E assim foi. Já tinha se passado um ano, desde aquele trágico dia. Um ano sem assumir o púlpito, um ano em que tinha aposentado minha breve experiência de pregador.

Num belo dia, a mesma estudante me convidou para sua festa de aniversário. Lá fui eu participar daquele momento alegre. Ao chegar em sua casa, fui apresentado aos membros de sua família. Seu pai olhou para mim e disse: “Eu te conheço! Você não pregou na igreja tal, cerca de um ano atrás?” Fiquei desconcertado e pensei: “Senhor do céu, ele ouviu aquele trauma homilético!”. Com um sorriso meio nervoso, respondi de forma afirmativa sua pergunta e procurei um jeito de mudar de assunto. Ele me olhou firme nos olhos, colocou sua mão no meu ombro e disse: “Sabe de uma coisa, naquele período eu estava vivendo de uma forma muito ruim, tomando decisões ruins. Naquele dia resolvi ir à igreja, no dia em que você estava ensinando a Bíblia. Consegui a entender sua explicação das Escrituras e resolvi mudar de vida. Por isso estou nesta festa hoje, porque uma das decisões que tomei foi a de regressar a minha família”.

Fiquei sem palavras. Agradeci com os olhos, dei um abraço nele e fui para um canto da casa. Pensei: “Quem sou eu para me julgar e autossentenciar quanto às minhas possibilidades ministeriais? Quem disse que o ministério nasce da fortaleza de alguém? Que ousadia querer negar a minha fragilidade, negar as possibilidades dos meus pequenos atos de obediência. Que falta de senso tentar justificar minha fuga daquilo que Deus me vocacionou para fazer! Se Deus pode usar o meu “trauma homilético”, ele pode usar a minha fraqueza para fazer o que Ele deseja”.

Naquele dia descobri que o ministério cristão não nasce de nossas fortalezas pessoais, ele nasce do encontro de nossa fraqueza com a imensa graça de Deus. Aquele foi o meu dia de responder, por três vezes: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo!”. Ao responder, me veio a memória o desafio de graça que segue no texto: “Vai e pastoreie as minhas ovelhas”.

Pr. Ziel Machado

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