A contradição

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“Em resposta, disse Jesus: Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto. Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado.” (Lucas 10.30-31)

Quem é o meu próximo? Perguntou o perito da Lei. Agindo com um rabino, Jesus contou uma história. A pergunta daquele homem é importante para nós e a resposta de Jesus também. Estamos sempre correndo o risco de ignorar nosso próximo, de não reconhece-lo. Em nossa religiosidade excluímos e condenamos como indignos de nossa aceitação  e cuidado, de nosso amor, pessoas cujos pecados consideramos inaceitáveis para Deus. Em nome de nossa consciência como adoradores de Deus, determinados a ser fiéis a Deus, entendemos que temos boas razões para manter distancia de alguns “próximos”. Para esclarecer ao perito da Lei (e a nós) sobre nosso dever de amar o próximo, seja ele quem for, Jesus contou a parábola. Um homem foi assaltado e deixado para morrer. Seria um judeu ou um samaritano? Um escravo ou um homem livre? Rico ou pobre? Que diferença isso deveria fazer para quem o visse? Nenhuma! 

O primeiro a ver é um sacerdote. Não apenas um religioso, mas um líder religioso. Esse personagem é muito simbólico porque representa os encarregados da liturgia, dos sacrifícios, da condução dos adoradores à presença de Deus. Mas a esse personagem Jesus atribui uma atitude equivocada. Ele se revela insensível ao homem necessitado e gravemente ferido. Era de se esperar que um sacerdote agisse com amor, mas não é o script que Jesus escolhe! Cristãos falam com Deus todo dia. Por que agimos sem amor? O que estamos aprendendo com Deus? No caso do sacerdote alguns dizem que passou de lado para não contaminar-se e ficar impedido de atuar em suas obrigações sacerdotais. Outros, que poderia se tratar de um não judeu e, portanto, alguém com quem ele não se sentia comprometido. Possibilidades. Mas o certo mesmo é que o sacerdote, com toda sua religiosidade e horas e horas de liturgia, recitando a Lei e os Profetas, ainda assim não sabia amar, não compreendia o amor como o centro de sua espiritualidade. Ele coava mosquitos e engolia camelos!

Jesus está nos mostrando que há essa triste possibilidade: vivermos uma espiritualidade contraditória, equivocada, por mais que a consideremos sagrada! Há o risco de nos insensibilizarmos para o outro e em lugar de amar, julgar. E teremos muitas razões para agir assim. Há o risco de nos tornarmos guardadores de ritos, realizadores de programas e protagonizares de cenas de adoração, e ao mesmo tempo sermos cruéis com as pessoas, desprezando relacionamentos por nos acharmos superiores e aos outros, indignos. Tudo em nome de Deus e da consciência cristã! Ao nosso modo, agimos como  aquele sacerdote, mas não conseguimos perceber. Como fariseus, valorizamos mais o sábado do que o ser humano, mais o templo do que o próximo. E seguidos apegados a justificativas, sendo superficiais, mas nos achando profundos; pensando estarmos seguindo a Jesus mas indo em sentido contrário. Chega de passar de lado. Precisamos amar o próximo! Chega de negar o Mestre, enquanto dizemos que nossa escolha é segui-lo!

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