Graça: começo, meio e fim! Parte 2

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“Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie.” (Efésios 2.8-9)

Por que a Graça? Entendemos melhor de Lei. Os caminhos da Lei nos são mais familiares! Encaixam-se melhor em nossa lógica, no modo como gostamos que as coisas fossem. No enredo da Lei, Deus aparece num monte assustadoramente sagrado. Tanto Deus quanto o monte! Moisés, o escolhido, sobe e recebe as instruções, numa experiência em que o servo de Deus lá permanece ocultado na presença santa, enquanto nada pode sequer tocar o monte. Nuvens escuras, trovões e raios. Moisés sobrevive e desce com as instruções gravadas em tábuas de pedra, cortadas e escritas pelo próprio Deus. Era só obedecer e viver (Ex 19 e 20). Mas desde antes e mesmo depois, ninguém pôde viver as instruções. E ficou ainda mais complicado quando Jesus avisou que a Lei dada não se referia apenas a atos, mas também a intenções e incluía mais do que havíamos imaginado. Jesus esclareceu que tudo era mais amplo e profundo do que havíamos pensado (Mt 5 a 7). Nossa incompetência ganhou proporções inimagináveis. Havíamos entendido pela metade e mesmo assim, falhado obedecer.

O Novo Testamento traz uma outra cena, um outro enredo: o da Graça. Ele acontece também num monte (Mt 17). Jesus é o centro e está com seus três mais íntimos discípulos (Pedro, Tiago e João). Tudo muito mais calmo. E então uma nuvem envolve a todos e Jesus resplandece. Aparecem dois personagens mais (Moisés e Elias) e uma voz que não é terrena se faz ouvir. Não há a entrega de instruções, mas a apresentação de uma pessoa. Em lugar de tábuas de pedra, gente. O Verbo que se fez carne! (Jo 1.14) E diz a voz: “Este é o meu Filho amado em quem tenho prazer. Ouçam-no.” (Mt 17.5) E logo tudo se desfez. Nada fica registrado. Sem fotos, vídeos ou mesmo algum som gravado. Nem uma self para o Instagram! “Como pode meu Deus, tanta glória passar, sem deixar rastro algum no lugar que passou!”, diria Stenio Marcius. Fica tudo depositado apenas na memória de homens simples, pecadores. Mas foi assim. Um enredo pouco elaborado se comparado ao da Lei. A Graça tem seus próprios caminhos e nossa lógica dificilmente acompanha. Devíamos apenas crer escandalizados e pronto. Mas tentamos melhorar e tornar tudo mais aceitável à nossa lógica. E aí caímos da Graça!

Tentando esclarecer, obscurecemos. Criamos caminhos espirituais que nos tornam carnais, mas de um jeito espiritual. Pelo compromisso em servir a Deus, desprezamos Sua vontade. Andamos em direção oposta à Sua presença, mas acreditando que estamos a caminho “do centro de Sua vontade”. E os sinais (sintomas) nos seguem. Não aprendemos a ser gente, como era de se esperar. Não aprendemos a amar, servir, cuidar. Não aprendemos a ser humildes e a buscar o lugar menos importante. Continuamos  viciados em procurar o cisco no olho do outro e em nos escandalizar com o fato de que pecadores pecam. O amor gera unidade e união, que são sinais do Reino segundo Jesus (Jo 13.34-35; 17.20-21), mas estamos mais preocupados com a liturgia e dedicados ao que nos agrada. Substituímos a espiritualidade de Jesus por nossa religiosidade. O Reino chegou a nós e seu caminho é a Graça. Que ela prevaleça e sejamos transformados. Que acordemos e sejamos curados. Precisamos ouvir de novo a voz do Evangelho: “Pela Graça…”. Ela é o começo, o meio e o fim da jornada cristã.

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