O que seria da história de Natal sem o relato de Lucas?

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Se o Natal fosse celebrado sem todas essas luzes, sem esse número quase infinito de músicas, sem os presentes, sem os votos de “Feliz Natal!”, como você se sentiria? (Nem falo sobre os cartões de Natal, porque esses são cada vez mais raros. No entanto, em outros tempos, parecia não ser Natal, a menos que a gente enviasse e recebesse pelos Correios os tradicionais cartões de Natal…).

Se não houvesse presentes, seria o mesmo Natal? Esta é uma reflexão a que somos levados pelo filme de animação “O Grinch”. Trata-se, na verdade, de uma história infantil, escrita em 1957, que foi adaptada ao cinema. O título da história infantil (já em tradução para o português) é “Como o Grinch roubou o Natal”. Contar essa história, especialmente o seu final, é, como se diz hoje, “dar spoiler” ou ser outro “Grinch” (palavra que, em inglês, virou sinônimo de desmancha-prazeres). Grinch era um ranzinza que vivia no alto de uma montanha. Ele detestava o Natal. Assim, decidiu acabar com a alegria do povo de Quemlândia, que morava no vale. Foi fazer o serviço de papai-noel ao contrário, entrando pelas chaminés das casas na calada da noite e roubando todos os presentes que tinham sido colocados debaixo das árvores de Natal. Só que a história não terminou como Grinch imaginava, e ele se deu conta de que o verdadeiro sentido do Natal não vem das lojas e não reside nos presentes. Mais do que isto não se deve contar. Aos interessados resta o livro ou, então, o filme.

O Natal segundo Mateus

E se não tivéssemos a história do Natal em Lucas 2, como seria o Natal? Será que ainda seria Natal? Poderia haver Natal sem presépio, sem manjedoura, sem pastores de Belém? Seria muito difícil celebrar o Natal se tivéssemos apenas o Evangelho de Marcos. (Mas não seria impossível celebrar a Páscoa, mostrando que esta é, de fato, a “festa máxima” da cristandade.) E como seria o Natal se tivéssemos apenas o Evangelho de Mateus? Ou as cartas do apóstolo Paulo?

Alguém já observou que o Natal em Lucas é calmo, melodioso, bucólico (anjos, pastores etc.), ao passo que em Mateus ele é barulhento. Magos entram em Jerusalém (com seus camelos?) e a cidade fica alvoroçada. Soldados vasculham as casas de Belém e matam meninos de dois anos de idade para baixo. A sagrada família, como é chamada, foge da sanha assassina de Herodes e vai para o Egito. 

Daria para acrescentar que, em Lucas, o Natal é prontamente acolhido. Maria se declara a serva do Senhor (Lc 1.38). (Nem mesmo o fato de não haver lugar na hospedaria é alvo de crítica, e o dono da hospedaria aparece como figura rude apenas em peças de Natal.) Os pastores de Belém encontram um menino enrolado em panos e, satisfeitos, voltam para os seus rebanhos, cheios de alegria (Lc 2.20). 

Em Mateus, o Natal aparece como um problema – para José. O relato está em Mateus 1.18-25 e, em nossas Bíblias, o título é “O nascimento de Jesus Cristo”. Mas será que é isso mesmo? Eu diria que é muito mais “o Natal do ponto de vista de José”. Pense comigo. Maria estava comprometida para casar com José. Foi então que José soube que ela estava grávida, e isso representava uma quebra do contrato de casamento. Nessa situação, José, que era homem justo, optou por aquilo que julgou ser o mal menor: desmanchar o contrato de casamento sem que ninguém o soubesse. Seria uma solução menos vergonhosa para Maria. Deus, porém, não estava satisfeito com essa solução à moda José. Porque, no fundo, José queria livrar-se do Natal. Por isso veio a contraordem: “José, filho de Davi, não tenha medo de receber Maria como esposa, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e você porá nele o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.20-21). E assim José assumiu o Natal. Pôs no menino o nome de Jesus, tornando-se assim o pai adotivo ou legal do Salvador. 

Uma rápida aplicação: Está cansado do Natal? Gostaria de poder dormir e acordar só depois de passado todo o corre-corre? Acha que a história é fantástica demais para ser real? Para você a solução é o “Natal segundo José”. Não fuja do Natal. Assuma o Natal. Acima de tudo reflita nisto: O nome dele é Jesus, pois ele salva o seu povo dos pecados deles.

O Natal segundo Paulo

Nas cartas de Paulo existe um aparente silêncio a respeito do Natal. O mais próximo que o apóstolo chega do Natal são duas passagens bem conhecidas. Uma delas é Tito 2.11 (com repetição em Tito 3.4-6). Diz assim: “A graça de Deus se manifestou salvadora, trazendo salvação a todos”. Só isto? Só. Mas é o jeito paulino de dizer aquilo que no Evangelho de Lucas aparece em termos de “hoje nasceu o Salvador de vocês”. 

O outro texto de Paulo está em Gálatas 4.4-6: “Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração”. Paulo afirma que o Filho de Deus nasceu de mulher, mas não cita o nome de Maria. Parece que o mais importante é que Cristo nasceu sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei. E Paulo não para por aí, dando a entender que a história do Natal não se completa nem mesmo com a morte e ressurreição de Jesus. Ela continua com os benefícios do Natal: nossa adoção como filhos de Deus e o envio do Espírito Santo ao nosso coração. E com certeza nem este é o final da história. O Natal não se basta, o Natal não termina no Natal. O Natal nos diz: “Jesus nasceu”. Mas é preciso ir além, dizendo: “Deus está conosco”. Isto já é bom, mas nem isto basta. É preciso continuar e dizer: “Ele é Deus por nós”, “ele veio para trazer salvação”.

O Natal segundo o Evangelho de João

João é o escritor bíblico que tem o Natal mais teológico, mais profundo. João 1.14 diz: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”. O Verbo? Que Verbo é esse? Verbo (em grego, lógos) é Palavra. Mas essa Palavra é mais do que uma fala ou uma linguagem; é uma pessoa. Além de existir, no princípio (“o Verbo era”), essa Palavra estava. Estava num lugar. “Estava com Deus”, diz o começo do Evangelho de João. Era uma pessoa na presença de outra pessoa. Mas, ao mesmo tempo, esse Verbo era algo. Era Deus (Jo 1.1). Sua natureza era divina. O Verbo era Deus, assim como o Pai é Deus. 

Não, aquele Verbo lá do princípio ainda não era Jesus. Aquela Palavra ainda não era o Cristo. Ele só passou a ser Jesus quando nasceu em Belém. Mas o evangelista João não diz isso desta forma (embora ele saiba que o Cristo devia nascer em Belém, como se lê em Jo 7.42.). João diz que o Verbo se tornou carne. Ele veio a ser o que não era antes: um ser humano. Ele habitou entre nós, cheio de graça e de verdade. E a partir daí, ao menos no Evangelho de João, o Verbo (que deixa de ser mencionado) passa a ser chamado de “Filho”. O Verbo é Jesus, o Filho de Deus.

Neste ponto a nossa mente trava. Não conseguimos entender mais nada. Deus se fez gente. Nenhuma outra religião fará tal afirmação. O máximo que se dirá é que Deus escolheu um profeta, iluminou alguém, adotou alguém como seu filho ou coisa parecida. Outras religiões querem descobrir um jeito de chegar até a presença de Deus. O cristianismo afirma que Deus se tornou um ser humano para nos levar até Ele, para nos dar “natureza divina”, como diz Pedro em sua segunda carta (2Pe 1.4). Por isso o Natal é tão diferente. Por isso o Natal é tão maravilhoso. Por isso o Natal é o Natal. Mesmo sem o relato de Lucas 2!

*Pr. Vilson Scholz 

*Pastor e professor de Teologia Exegética, tem mestrado e doutorado na área do Novo Testamento. Consultor de Tradução da Sociedade Bíblica do Brasil, Scholz é professor da Universidade Luterana do Brasil, em Canoas (RS), tradutor do Novo Testamento Interlinear Grego-Português (SBB) e autor de Princípios de Interpretação Bíblica (Editora da Ulbra).

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