Frieza

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E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará. (Mt 24:12)

Nunca as comunicações foram tão imediatas e nunca estivemos tão distantes uns dos outros.

São raras as famílias que não possuem um grupo social onde se comunicam uns com os outros. Contudo, exceto pela tonelada de futilidades ali postadas, estas pessoas não se falam, não se vêem, não se visitam e não se amam. O amor se esfriou na proporção da ilusão da proximidade.

Lembro-me dos meus doze anos. Minha prima Neusa Pagani morava em Maringá, Paraná. Ela ajudou a me criar quando pequenino. Eu tinha um grande afeto por ela. Como aprendi a ler e a escrever cartas fazia questão de escrever-lhe uma por semana. E ela me respondia. Como nós nos sentíamos próximos. Hoje estamos no whatsapp e a comunicação pessoal inexiste.

As amizades demandavam visitas, ligações telefônicas, viagens, almoços, encontros em lugares comuns. Hoje as amizades são meramente nominais, geralmente movidas por interesses comuns. Vencida a pauta que os une a relação torna-se mais uma estrela apagada na constelação dos inúmeros contatos dos quais nos gabamos. Às vezes uma notícia de falecimento aparece e a nossa tendência é simples: deletar o contato dos envios que fazemos e “vida que segue”.

Filhos e pais também demonstram como nunca o esfriamento das relações. A “síndrome do ninho vazio”, tão comum de pais que vêem seus filhos saírem de casa para formarem as suas famílias, agrava-se com o império das mídias sociais. Passávamos o Natal juntos, ou o ano novo, ou festejávamos aniversários em comunhão. Hoje nos restringimos a uma linha de comunicação, uma figurinha alegre, um som de parabéns à distância. Quanto às festas familiares sempre temos uma boa desculpa: “este ano não dá”; “tenho que atender a outros interesses”; “fica pro próximo”. E cada ano nos distanciamos um século das pessoas amadas.

Amizades de igreja não são diferentes. Antes, com o contato contínuo, desfrutávamos de interesses comuns, de prosa e refeições. Depois, quando não ocupamos mais cargos comuns aos amigos, ou quando nos separamos de congregação, o relacionamento arrefece e aos poucos a frieza congela o amor. Na vida pastoral isso é extremamente evidente. Pastores que encerram o ministério perdem o contato comum e os membros, antes tão afeiçoados, aos poucos se esquecem dos seus ministros anteriores. “Rei morto, rei posto”. Pastores entre si também não são diferentes. Em épocas de necessidade de uma das partes os contatos aumentam, os telefonemas, as comunicações. Após a solução da vacância, um novo ministério, por exemplo, a relação ou diminui ou simplesmente desaparece. Não era afeto verdadeiro; eram relações pragmáticas e necessárias.

E ainda ousamos dizer que amamos a Deus! Ousamos dizer que somos um em Cristo Jesus! Muito teatro na hora do cântico de confraternização, muitos beijinhos, abraços, apertos de mão e até lágrimas, e um coração congelante que não é afetado pela vida do próximo!  E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também a seu irmão (1Jo 4:21). Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? (1Jo 4:20)

Que mundo é esse, meus leitores? Que tempos são esses onde as pessoas não valem nada umas para as outras? Que época é essa em que estamos tão próximos com a tecnologia e tão distantes no relacionamento pessoal?

São os dias do fim. Esses aparelhos eletrônicos, tão úteis para a comunicação (talvez eu esteja sendo lido em um deles!) tem sido usado por Satanás para nos manifestarmos como os seres mais mesquinhos, mais egoístas e mais aproveitadores da criação. Só nos relacionamos quando precisamos. E isto não é bom. O número de suicídos e de crimes cresce na mesma proporção em que substituimos o amor pessoal pelo amor virtual.

Eu também tenho que falar sobre a relação entre nós e Deus. Ela é a fonte de toda essa frieza. A nossa relação com o Pai é, não raras vezes, por mero interesse: para pedirmos a bênção, a cura, a solução de problemas, a prosperidade, um novo emprego, um casamento, uma graça. Vencida a pauta guardamos Deus na nossa caixinha de quinquilharias ou no estojo de primeiros socorros, para usá-lo quando necessário se fizer. Isso não é amor. Isso é impiedade. Longe se vai o tempo em que homens e mulheres de Deus investiam a atenção na leitura da Bíblia, na oração e no culto doméstico! Nem nos lares pastorais isso tem existido mais…

“Deus, nosso Pai, quebra o gelo de nosso coração e ensina-nos a amar com o mesmo amor manifestado por Ti em Jesus. Que Te amemos mesmo quando não há pautas para apresentar. E que amemos aos nossos famíliares, irmãos em Cristo, amigos e até inimigos com o coração voluntário, cheios de interesse pelo próximo, ainda que nada venhamos a receber. Em nome de Jesus. Amém.”

Pr. Wagner Antonio de Araújo
Igreja Batista Boas Novas do Rodoanel em Carapicuíba – São Paulo
Colaborador deste Portal

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